quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Último telegrama - crônica de uma morte anunciada

Folha de São Paulo - caderno Ilustríssima, 22/09/2013 

Crônica de uma morte anunciada


RESUMO
 Tido como moribundo desde a invenção do telefone, o telegrama voltou ao noticiário com a extinção do serviço na Índia, em julho. No Brasil, porém, os envios, já adaptados aos recursos on-line e sem as restrições de linguagem que eram características desse meio de correspondência, crescem e bateram recorde em 2012.

ALEXANDRE RODRIGUES
*

Uma onda de nostalgia correu o mundo quando os correios da Índia anunciaram, em julho, o envio do último telegrama no país. Depois de prejuízo nos últimos anos e enfrentando a concorrência dos celulares, o governo local decidiu encerrar o serviço, que funcionava no país desde 1850.
Então todos se puseram a lembrar de uma tecnologia considerada moribunda. A agência Euronews noticiou que aquele seria o último telegrama no mundo, enquanto o jornal inglês "The Guardian" afirmava que a Índia era o lugar derradeiro onde as pessoas ainda enviam telegramas. No Brasil, no entanto, esse meio de comunicação está muito vivo, e a Empresa de Correios e Telégrafos não tem planos de acabar com o serviço.
Em 2012, foram quase 20 milhões de telegramas enviados, um recorde 15% superior aos 17,4 milhões de 2011. Saíram de cena os telegramas de pêsames, declarações de amor e de aniversário para dar lugar às mensagens comerciais e comunicados da Justiça. Hoje, o serviço é usado basicamente por empresas, e a maioria das postagens, segundo os Correios, é feita via internet. Apenas 10% dos dez milhões de telegramas enviados de janeiro a julho foram preenchidos no balcão, à moda antiga; os telegramas fonados representam número ainda menor: 1,5% do total.
"O telegrama soube se modernizar", diz o historiador Romulo Valle Salvino, chefe do Departamento de Gestão Cultural dos Correios, em Brasília. "É um serviço que ainda atinge muita gente, por oferecer a garantia de que a mensagem foi entregue. Em qualquer tecnologia nunca se deve esquecer o fator cultural, e isso funcionou no Brasil."
Dez anos atrás, não seria descabido apostar no fim do serviço. Mesmo depois de os Correios criarem uma agência virtual em seu site, em 1998, permitindo pela primeira vez o envio pela internet, os números caíam ano após ano, com a concorrência do e-mail e do celular, até que em 2003 a tecnologia tocou o fundo do poço: apenas 6,8 milhões de telegramas foram enviados no país. Desde então, porém, com a facilidade de envio pela internet, os telegramas recuperaram terreno. Já em 2004 foram 10,6 milhões. Nos anos seguintes, as postagens continuaram aumentando, mas de 2011 para 2012 houve um salto, passando de 17.480.543 para 19.978.539.

Telegramas

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Rony Maltz/Folhapress
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A atriz Keli Freitas mostra itens de sua coleção de telegramas
PERSISTÊNCIA

Os números revelam a persistência de um serviço que há mais de um século, desde a invenção do telefone, tem sua morte seguidamente anunciada a cada nova tecnologia que nasce.

Mesmo que desde o século 16 já existissem no Brasil os chamados telégrafos óticos -sistemas que enviavam mensagens à distância através de bandeiras e outros recursos visuais-, foi em 1852 que o imperador dom Pedro 2º inaugurou a primeira linha do telégrafo, oito anos depois da primeira transmissão, nos Estados Unidos, pelo americano Samuel Morse.

O objetivo era ajudar a combater o tráfico de escravos, proibido desde 1850. Mas o telégrafo acabou sendo fundamental mesmo na Guerra do Paraguai (1864-70), transmitindo informações do campo de batalha para a Corte no Rio; e de lá, instruções para as tropas.

Em 1874, um cabo submarino ligou o nordeste do Brasil a Portugal, iniciando as transmissões internacionais. Surgia a primeira rede mundial de transmissão de dados em alta velocidade.

"Foi a maior revolução nas comunicações desde o desenvolvimento da imprensa escrita", diz o escritor inglês Tom Standage, autor de "The Victorian internet: the Remarkable Story of the Telegraph and the Nineteenth century's On-line Pioneers" (a internet vitoriana: a notável história do telégrafo e dos pioneiros on-line do século 19; St. Martins Press, R$ 50,60, 240 págs.).

O impacto do telégrafo sobre as comunicações da época foi, segundo Standage, muito maior do que do e-mail ou o de qualquer outra tecnologia moderna. Se por milênios a rapidez da troca de mensagens era lenta e dependente da velocidade de homens e cavalos, com os cabos telegráficos centenas de quilômetros passaram a ser percorridos em minutos.
"Hoje em dia é difícil imaginar a revolução para os negócios que foi o telégrafo", explica o historiador Valle. "Até então, se alguém queria encomendar algo, o pedido ia de navio e levava 40 dias na travessia do oceano até Portugal. Depois era o tempo de o navio ser abastecido e mais 40 dias na travessia de volta.
Qualquer negócio levava meses."

LITERATURA

A literatura da época registrou a novidade. No romance "O Moço Loiro", de Joaquim Manuel de Macedo, de 1845, aparece a torre do telégrafo visual inventado pelo francês Claude Chappe -um sistema de braços mecânicos que formavam sinais interpretados como letras de alfabeto, no morro do Castelo, no Rio.
Machado de Assis escreveu mais de uma crônica sobre o telégrafo. Primeiro desancando a invenção, como na vez em que chama os telegramas de "logro", protestando contra a imprecisão do conteúdo em comparação com as cartas (revista "Ilustração Brasileira", 15 de agosto de 1877). Mais tarde, reconhece a rapidez do meio em informar a morte do maestro Carlos Gomes, em 1896 ("A Semana", edição de 20 de setembro daquele ano).

Também é com a chegada de um telegrama, comunicando a morte da mãe do protagonista, que começa o romance "O Estrangeiro", de Albert Camus. E, às vezes, telegramas da vida real veicularam exercícios quase poéticos, como numa troca de mensagens entre Victor Hugo e seu agente. Em 1862, autoexilado na ilha de Guernsey e querendo saber como andavam as vendas de seu novo "Os Miseráveis", Hugo telegrafou apenas: "?". E o agente respondeu: "!".

No Brasil, o serviço de telegramas ainda foi importante para integrar o território com as missões do marechal Cândido Rondon, que espalhou 8.000 quilômetros de cabos telegráficos nas primeiras décadas do século 20, ligando as regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste à capital. Só no fim dos anos 1970, quando começaram as transmissões via satélite, os postes foram sendo abandonados.

Hoje, com a internet, todas as mensagens são primeiro processadas no Centro Corporativo de Dados dos Correios, em São Paulo, e depois passam por um dos Centros de Serviços Telemáticos, em São Paulo, Rio e Minas Gerais, que formatam o arquivo e enviam para impressão na agência mais próxima do destinatário.

Com as mudanças no processamento, expressões como a corrente "PT SAUDACOES", que entrou para o vocabulário popular, já não comparecem. Tampouco há mais necessidade de escrever abreviaturas e nem os famosos "AMANHAN" e "ATEH" da linguagem telegráfica, já que a cobrança não é por caracteres -cada telegrama nacional sai por R$ 6,64.

As proibições relativas ao conteúdo, porém, seguem reguladas por uma lei de 1978. Não se permite, por exemplo, enviar um telegrama com palavrões. O mesmo vale para "dizeres injuriosos, ameaçadores, ofensivos à moral, contrários à ordem pública ou com notícias reconhecidamente falsas".

COLEÇÃO

Embora as normas de correção tenham se mantido, dificilmente surgirá, nos telegramas de hoje, algo parecido ao dos exemplares de correspondência que a atriz e dramaturga Keli Freitas guarda em sua coleção no Rio.

São cerca de 50 itens, quase todos encontrados em meio a lotes de cartas. Um deles diz apenas: "SAUDADES PT AMOR PT". "O telegrama parece sempre ter um caráter de exceção por ter a ver com a urgência, e não com o andamento 'normal' da vida", diz a colecionadora, que começou em 2007 a guardar cartas, postais e telegramas e já acumula 2.000 itens -a carta mais antiga data de 1887.

As mensagens nem sempre são sentimentais. "ESTOU URUGUAYANA NAO POSSO SEGUIR MUITA CHUVA", comunica um morador do Rio Grande do Sul em 1948. Há o grave "FINESA INFORMAR RECEBEU NOSSO FONO DIA 19 CORRENTE E SI PROVIDENCIOU RESPEITO COMPRA CAMINHAO COM TOMBADEIRA SAUDACOES" e ainda a comunicação que pretendia ser informativa, mas soa demasiado humana: "TENHO MUITA VONTADE DE COMPRAR O CARRO MAIS SO TENHO CENTO E TRINTA MIL CRUZEIROS".

Keli anota frases como essas em um caderno e depois as transforma em carimbos -na página Carimbaria, que ela mantém no Facebook, há fotos de vários exemplos estampados em papel. Mesmo que, curiosamente, nunca tenha enviado um telegrama, a colecionadora lamenta que a maioria da população tenha deixado de lado essa forma de correspondência. "É uma memória que se perde", acredita.

Essa sensação nostálgica fez com que, na Índia, o anúncio do fim provocasse uma verdadeira corrida às agências de pessoas querendo enviar sua última mensagem à moda antiga.

Mas aquela que foi a derradeira mensagem transmitida causou comoção nas redes sociais, devido ao destinatário escolhido pelo Escritório Central dos Correios: o vice-presidente do Congresso, Rahul Gandhi, playboy ligado a uma família tradicional de políticos.

Como ironizou na internet um indiano, o telegrama, ao tornar-se uma relíquia, fará "Pappu ser famoso nos livros de história" -em hindi, Pappu, apelido pejorativo de Gandhi, significa "bobo".

Jô escreveu uma crônica engraçadíssima a respeito de passar telegrama:

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Como fazer memorando


O memorando é uma comunicação escrita de consumo interno, somente para funcionários e operários. Não é tão formal quanto a carta comercial ou ofício, por isso dispensa tratamentos de "prezado senhor" e fechos como "atenciosamente", mas também não pode ser tão informal a ponto de ser mandados por eles abraços e beijos. "É um modo de comunicar políticas,decisões e instruções. Na atualidade, quando há uma rede de lojas ou repartições públicas, o memorando é passado como fac-símile (fax).
Difere da carta comercial e do ofício por ter circulação limitada ao âmbito da empresa, enquanto que a carta e o ofício destinam a interesses externos, a clientes, consulentes, representantes, fornecedores, autoridades.

Observações: a) Tratar um só assunto em cada memorando.
b) A empresa ou repartição poderá ter um impresso próprio para memorando, com diagramação adequada, logotipo.


FAC-SÍMILE(FAX)

Fax ou telefax funciona como um serviço de fotocópia à distância, ou seja, é um meio, não chega ser um tipo de correspondência. O ofício, a carta comercial, a circular, o memorando podem ser remetidos por fax.
Quando na empresa ou na repartição se dá o nome de fax ao memorando "para sua expedição pode ser utilizado formulário padronizado, que chega ao destinatário por cabo telefônico, ficando o original com o emissor. A comprovação do recebimento, pelo remetente, é feita pelo aparelho emissor que informa dia e hora de sua efetivação." (Comunicação Dirigida Escrita na Empresa, de Cleuza G. Gimenes Cesca.)
O fax pode ser usado em comunicação interna e externa. Por exemplo, a Delegacia de Ensino de Araçatuba recebe, por fax, da Secretaria de Estado da Educação uma orientação que deve ser remetida a todas as escolas. Para facilitar a comunicação, a delegada reproduz o documento em fotocopiadora e manda uma cópia do fax para cada diretor de escola.
O último telegrama

Quem já passou telegrama há tempos sabe como era uma mensagem resumida, retirando todos os termos acessórios da oração, porque o correio cobrava por palavras. Tuitar (apenas 140 caracteres por mensagem) é mais fácil do que telegrafar. Jô escreveu uma crônica engraçadíssima a respeito de passar telegrama: http://beijaflorazul.blogspot.com.br/2007/05/da-difcil-arte-de-redigir-um-telegrama.html

O telegrama, uma forma popular de comunicação na Índia, deixou de existir no país asiático após a última mensagem, que foi enviada no dia 15 de junho de 2013.
Após 163 anos de existência na Índia, o telegrama sucumbiu diante das novas tecnologias, e o governo decidiu acabar com o serviço.

No Brasil, o telegrama foi criado no império de D. Pedro II (1857), mas continua existindo, pois foi submetido a um processo de mutação com a nova tecnologia.

No Brasil, entre 2007 e 2012, o volume anual de telegramas cresceu 39%, passando de 14,4 milhões para 20 milhões. No ano passado, 87% do fluxo foi eletrônico, 11,5% nas agências e menos de 3% foi por telefone - a forma original de envio.


A atual transmissão eletrônica é chamada de híbrida: os dados são captados pela web e depois a mensagem é impressa e envelopada por máquinas na agência mais próxima do destinatário, sem a intermediação humana. O preço mínimo é R$ 4,98 e varia conforme o número de páginas e serviços adicionais.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Como fazer ata


 Ata é um documento em que se registram resumidamente e com clareza as ocorrências, deliberações, resoluções e decisões de reuniões ou assembleias. Antigamente, o seu portador era um livro, um grande caderno, capa preta. Atualmente, elas são digitadas, impressas e arquivadas em pastas. Ou, então, apenas digitadas e arquivadas no próprio computador.
      Deve ser redigida de tal maneira que não seja possível qualquer modificação posterior. Para evitar isso deve ser escrita:
      - com margens dos dois lados (livro de ata) e formatadas em editor de texto que não permita alteração, como o PDF, por exemplo;
      - sem parágrafos ou alíneas (ocupando todo o espaço da página);
      - sem abreviaturas de palavras ou expressões;
      - com números escritos por extenso;
      - sem rasuras nem emendas;
      - sem uso de corretivo
      - com verbo no tempo pretérito perfeito do indicativo;
      - com verbo de elocução para registrar as diferentes opiniões.

      Se o relator cometer um erro, deve empregar a partícula retificativa digo, como neste exemplo: “Aos vinte dias do mês de março, digo, de abril, de mil de dois mil e treze...”
      Quando se constatar erro ou omissão depois de lavrada a ata, usa-se a expressão “em tempo”: “Em tempo: onde se lê março, leia-se abril”.
Partes da ata:
·       Data, horário, local e objetivos;
    Usar primeiro (ordinal, para indicar o 1.º dia de cada mês)
·       Nome do presidente da reunião e de quem a secretariou;
·       Pessoas presentes. Se for um grupo pequeno, citá-las nominalmente;
·       Relato da reunião propriamente dita. A parte principal do documento;
·       Encerramento.
OBSERVAÇÃO: há entidades, empresas ou repartições em que todos assinam a ata, após sua leitura em reunião posterior; outras, anexam lista de presença e secretário e presidente assinam-na. Depende muito de decisão do colegiado.  

Modelo de ata
      Data, horário, local e objetivos
      Aos quatorze dias do mês de outubro de mil novecentos e noventa e seis, com início às vinte horas, no salão de festas da Escola Estadual Duque de Caxias, sita na Avenida Tocantins, número duzentos e doze, Porto alegre, realizou-se uma reunião de todos os alunos da oitava série da escola, com o objetivo de preparar as festividades de conclusão do primeiro grau.
      O presidente, a secretária da reunião e as pessoas presentes
      A reunião foi presidida pelo líder da oitava série A, José Luís Lousada, tendo como secretária a líder da oitava série B, Andréia Passos. Contou com a participação de oitenta e dois alunos, dos professores conselheiros das três turmas e da vice-diretora, Fabíola Barreto.
      Relato da reunião propriamente dita.
      Inicialmente, José Luís Lousado solicitou à vice-diretora que comunicasse as providências administrativas e o andamento legal referente ao término do primeiro grau. Foi esclarecido que os alunos de oitava série encerrariam o ano e fariam as recuperações juntamente com os demais alunos da escola, e que a direção pensava oferecer um coquetel no encerramento do ano letivo para alunos e professores da oitava série, ocasião em que os alunos receberiam o histórico escolar. A data para isso deveria ser escolhida nesta reunião. Após ouvir variadas sugestões e opiniões, o presidente da reunião solicitou que fossem votados dois itens: a escolha da data e se a entrega dos históricos escolares teria a presença dos pais, com homenagem a alguns professores. Alguns alunos inscreveram-se para defender diferentes pontos de vista sobre a conveniência ou não de se realizar uma reunião formal no encerramento do primeiro grau. Após debatidas as idéias apresentadas, José Luís Lousado encaminhou a votação, que obteve o seguinte resultado: cerimônia formal para entrega dos históricos escolares e posterior coquetel: cinqüenta e sete votos favoráveis e vinte e cinco contra; entrega informal com coquetel; vinte e cinco votos favoráveis e cinqüenta e sete contra. Em seguida, apreciadas as datas sugeridas, foi escolhido por unanimidade, o dia quinze dezembro para a realização do evento, com início às vinte horas.
      Encerramento
      Nada mais havendo a tratar, foi lavrada a presente ata, que vai assinada por mim, Andréia Passos, secretária, pelo presidente da reunião, pela vice-diretora e pelos professores e alunos presentes.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Adiamento da vigência do Acordo Ortográfico teve apoio de senadores

Os brasileiros terão mais três anos para adaptar-se às novas normas da língua portuguesa. 
 O adiamento, estabelecido por meio do Decreto 7875/2012, assinado pela presidente Dilma Rousseff e publicado no Diário Oficial da União desta sexta-feira (28), contou com o apoio e o estímulo de senadores da Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE).

A implantação definitiva do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, firmado em 1990 por todos os países de expressão portuguesa, deveria ocorrer no Brasil a partir de 1º de janeiro de 2013, segundo decreto presidencial de 2008.

O novo decreto publicado nesta sexta-feira ampliou o período de transição até 31 de dezembro de 2015. Até lá, coexistirão a norma ortográfica atualmente em vigor e a nova norma estabelecida por meio do acordo.

No final de novembro, os senadores Cyro Miranda (PSDB-GO) e Lídice da Mata (PSB-BA) levaram à ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, sua preocupação com o curto período até então existente para a implantação definitiva das novas normas ortográficas. Durante o encontro, a ministra disse não se opor à ampliação do período de transição estabelecido no acordo firmado pelos países de língua portuguesa.

Três meses antes, a senadora Ana Amélia (PP-RS) e o senador Cyro Miranda haviam apresentado um projeto de decreto legislativo (PDS 498/2012) destinado a ampliar o período de transição para seis anos -três a mais, portanto, do que o estabelecido por meio do novo decreto presidencial.

A partir da adoção definitiva pelo Brasil das normas estabelecidas pelo acordo, os concursos públicos e as provas escolares deverão cobrar o uso correto da nova ortografia. Documentos e publicações deverão também circular perfeitamente adaptados às novas regras.
A adequação dos livros didáticos começou em 2009, quando o acordo entrou em vigor e começou o período de transição. Na opinião da senadora Ana Amélia, no entanto, o prazo de adaptação foi curto.

"O assunto demanda maior tempo de maturação, bem como integração mais ampla com os demais países envolvidos", diz a senadora na justificação da proposta.

Como observa Ana Amélia, todos os signatários do acordo adotaram períodos de transição mais longos. Em Portugal, por exemplo, o período de convivência entre as duas normas vai até 2015. Em Cabo Verde, o prazo só acabará em 2019.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Truques para escrever mal


Luís Antônio Giron 
Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA,
escreve sobre os principais fatos do
universo da literatura, do cinema e da TV 

As pessoas andam em busca de soluções fáceis. Querem receitas e listas para tudo, de pratos rápidos a teses de pós-doutorado, passando por instruções para conserto de carros e se comportar corretamente nas empresas. Querem a lista facilitada de posições do Kama Sutra; os fundamentos rápidos da metafísica e do futebol; as senhas para todos os sistemas possíveis; os atalhos para ganhar o primeiro bilhão. Eu poderia mandar todos para aquele lugar que se chama Google search. Lá, todo mundo sabe, você pode achar que encontra tudo e mais um pouco. Mas talvez ainda eu tenha algo a dizer a respeito de como escrever mal, que é o melhor caminho para fazer amigos, influenciar otários e galgar postos. De que serve a correção de estilo, se os tolos se impressionam com alguns macetes que vou revelar? Com eles – os tolos e os macetes – você poderá triunfar nas festas literárias, vencer concursos e se dar bem nas feiras de networking de autores.
Vamos direto ao essencial: o que vale não é escrever bem, mas fingir escrever bem. É quase tudo assim na vida, pois mais vale cacarejar que botar o ovo. Ao longo da história da cultura, a muleta se revelou mais útil que o pensamento claro. Por isso, vou citar de cara o escritor inglês George Orwell. Na sua crônica “A política e a língua inglesa”, publicado no Payment Book em 11 de outubro de 1945, e noHorizon, em abril de 1946 – agora republicado no volume Como morrem os pobre e outros ensaios, organizado por João Moreira Salles e Matinas Suzuki Jr., edição da Companhia das letras - Orwell fez uma lista de “vários dos truques por meio dos quais o trabalho de construção da prosa é habitualmente evitado”. Isso para depois dar seus seis conselhos para o bem escrever. Como se trata de um texto antigo, o tempo fez reverter quase tudo o que ele aconselhou. O que vale agora é quase exatamente o inverso dos seis pontos de Orwell. Por isso, devo usar suas dicas como maus exemplos. Pois elas servem, no máximo, para escrever para revistas, não para vencer na literatura – que é o que queremos, certo? Então, vamos lá. Anote aí – ou melhor, recorte e cole aí meus oito truques para escrever livros, dar palestras e conversar com o pessoal nas festas literárias. Procure segui-los na ordem.
1. Cause efeito. Ou simplesmente cause. Diga algo bem polêmico que tire o ar do leitor ou da audiência. Tire do nada, sem propósito. Um bom recurso é usar o método da autoficção, transformando-se você mesmo um herói do romance da vida. Misture uma atividade intelectual a outra pedestre. Diga que você medita sobre o ser-aí de Heidegger enquanto corre ou joga bola. Isso vai encantar. Ou então faça controvérsia. Discuta qualquer tema, mas por um ângulo inesperado. Faça de você mesmo um mito. Use de seu charme pessoal para fazer o marketing literário ideal.
2. Hipnotize seu interlocutor. Esta parte é importante. Conquiste a presa elogiando-a, chamando-a para si. Num romance, pegue o leitor pela mão e o carregue para uma história cheia de detalhes apimentados. Pisque para ele, com uma gracinha ou ironia quaisquer. Numa palestra, leia um trecho de seu texto com voz grave e tom oracular, como se estivesse lendo seu testamento estético. Faça o ouvinte sentir o enlevo de uma oração longa e sentimental.
3. Seja irrelevante. Diga abobrinhas à vontade, porque assuntos inúteis criam empatia com seu interlocutor, público ou leitor. Escolha um assunto bem banal. Pode ser a filosofia de seu cachorro, como despir o ser amado ou a beleza de uma certa modelo. Podem ser dicas de viagem, de como preparar um omelete ou bebericar um vinho caro. O importante aqui é surpreender a patuleia. Não adianta ser irrelevante sem causar espanto. Por exemplo: se o seu cão é filósofo, declare que você descobriu que ele, na verdade, plagiou o Tractatus logico-philosoficus de Ludwig Wittgenstein ou O mundo como vontade e representação (Die Welt als Wille und Vorstellung), de Arthur Schopenhauer. Cite-os em alemão. E explique as razões que o levaram à conclusão. Faça uma denúncia grave contra o animal. Demonstre cada ponto. E assim por diante. Não deixe por menos.
4. Faça-se de vítima. Diga ou escreva que você ou seu personagem sofreu “bullying” na infância, junto aos pais, na escola ou com amiguinhos malvados. Não use termos vernaculares como “fui perseguido” ou “sofri agressão”. Diga “bullying” que tudo fica mais moderno e compreensível. Invente um episódio sinistro e conte detalhes de como os adultos maltratavam você quando criancinha, em detalhes os mais escabrosos. Demonstre que você sofre agora mais do que nunca como o ocorrido. Isso o livrará de quase todo o confronto. Uma vez vitimizado, você pode tudo. Chore em público.
5. Use metáforas, símiles e figuras de linguagem que todos conhecem de ouvido, mas cujo significado não conhecem bem e, por conseguinte, causem impressão. Não há nada mais eficaz que uma imagem surrada, as metáforas moribundas e cretinas. Use-as para que ninguém se sinta excluído. Nestes tempos politicamente corretos e de inclusão social e ecológica, é preciso se fazer entender. Cuidado para não se valer de figuras antigas, como “misturar alhos com bugalhos” ou “caiu na rede é peixe”. São metáforas que de tão velhas se tornaram originais. Prefira falar de um “mundo sustentável”, de “governança corporativa”, “inovações tecnológicas” e “sinalização de tendências”. Tudo tem que ser “emblemático” e, melhor ainda, “paradigmático”.
6. Não economize pretensão. Seja metido a besta, fale de sua última viagem a Londres ou Shangai e cite os jornais certos. Não valem os nacionais. Impressione-os com seu conhecimento, mesmo e sobretudo se você não tem nenhum. Quanto menos você conhecer, mais fácil será simular que conhece. Esbanje notas de rodapé (tenha em mente que o David Foster-Wallace ficou famoso assim) ou digressões (Laurence Sterne do Tristram Shandy, ou Brás Cubas do Machado, lembra?). Valha-se de expressões estrangeiras ou mesmo barbarismos. Mostre que é categórico em algumas afirmações fortes. Cite os intelectuais da moda (por exemplo, Jacques Derrida e Roland Barthes caíram em desuso já faz tempo, não ouse mencioná-los, pois agora os quentes são Giorgio Agamben, Slavoj Zizek ou Christopher Hitchens). Não adianta apenas mostrar o nível avançado em filosofia ou economia política; é preciso estar antenado com as tecnologias de ponta, com o Twitter, o Tumblr etc. Conte uma piada para exibir o quanto você sabe sobre scripts dinâmicos que você ou seu personagem usa no seu blog. Isso vale para livros de ficção, não-ficção, autoajuda e infanto-juvenis. Vale também para conferências, chats e bate-papos virtuais ou não.
7. Degrade a língua. Você estará fazendo um serviço à ecologia. Desgaste as expressões mais usadas como se as tivesse engastando-as no mais perfeito poema parnasiano. Corrompa a sintaxe, use expressões estrangeiras, transforme o idioma em um instrumento para seu uso, e sob seu domínio. Faça as locuções pré-fabricadas tomarem conta do discurso. Se houver uma expressão mais clara, corte-a imediatamente, para que a simulação não seja descoberta. Abuse de termos estrangeiros, principalmente em inglês. Jamais se faça as seguintes perguntas: o que estou tentando dizer? Que palavras vou usar? Que imagem ou expressão idiomática deixará meu texto mais claro? Pule essas questões embaraçosas e vá em frente.
8. Desobedeça todas as regras acima, em caso de desvantagem. Se você observar que não está sendo popular, então infrinja tudo o que arrolei anteriormente. Vire um sábio de verdade, corte as palavras inúteis, represente seriedade, finja sentir a dor que deveras sente. Qualquer coisa para reverter as expectativas. Siga o venerando tuíte de Goethe: “Seja transgressivo, e os deuses o abençoarão”. Pelo menos é assim que os programadores linguísticos gostam de fazer: no final de uma lista, quebrá-la. Funciona.
Sim, a vida é dura. Não basta apenas saber de cor as dicas, mas também se desfazer delas quando necessário. A constante busca de aperfeiçoamento e inovação na literatura e nas festas literárias nos obriga a recorrer a todo tipo de ferramenta retórica. Não se esqueça de que você estará sendo medido em cada um de seus neurônios. Por isso, busque o efeito correto para cada situação. Faça mentiras soarem verdadeiras, faça a ignorância parecer conhecimento. Substitua o estilo genuíno pelo chavão mais acachapante. Se preciso, em ultima instância, tente ser original, fingindo que finge. Mas cuidado para não por tudo a perder por excesso de zelo. Não brilhe demais para não ofender os outros – e, principalmente, os críticos.
(Luís Antônio Giron escreve na revista ÉPOCA)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

PRAGAS DO TEXTO: clichê, o highlander de todas as mídias


Por José Carlos Aragão em 12/4/2011- OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA
Parafraseando alguém que não me lembro quem (talvez Guimarães Rosa; ou, talvez, apenas um dito popular), coisa que não acaba no jornalismo é clichê e texto ruim. (No original, “coisa que não acaba nesse mundo, é gente ruim e toco de pau” – acho que é isso.) Velho primo-irmão dos tipos móveis de Gutemberg, o clichê é um ser que sobrevive como um highlander em todas as mídias. Mutante, vive em permanente migração entre elas, como um viral indomável. Praga, tem em todo lugar e parece renascer eternamente.
Assim é que – em jornal, TV, rádio e qualquer mídia – todo buraco em calçada, rua, estrada ou obra do metrô é chamado de “cratera”. Não que o termo seja inadequado. O que cansa é a repetição. E o invariável adjetivo que qualifica o referido buraco: “grande”. Ocorre que “grande” é muito relativo. Um buraco grande pode ser aquele suficiente para que uma criança caia dentro dele. Ou um ônibus. Ou um quarteirão inteiro. Alguns repórteres mais zelosos até fazem comparações elucidativas: “Uma cratera do tamanho de um campo de futebol.” Ou tentam ser mais precisos: “Uma cratera de sete metros de largura.” Melhor para o leitor, especialmente se a matéria não tem fotos. Ainda assim, invariavelmente, redatores e repórteres não abdicam do “grande”.
Passageiro “sem passagem”
Além disso, atenção para o verbo! Toda cratera de rua e estrada só sabe fazer uma coisa: “engolir”. Criança, ônibus, quarteirão – não importa. A exceção é apenas para a cratera original, a de vulcão, que costuma despejar (se for lava ou cinzas) e lançar (se for fumaça ou gases).
Rotular como cratera qualquer buraco também pode levar a situações ambíguas e curiosas. Imaginemos que um repórter esteja cobrindo a descoberta de um fóssil de dinossauro na cratera de um vulcão extinto. E, na entrevista com o paleontólogo responsável, este exibe a cabeça do animal e aponta várias “crateras” em sua arcada dentária para especular sobre os hábitos alimentares do bicho ou sua causa mortis... É muita cratera para uma matéria só. Além disso – proporcionalmente – a cratera do vulcão pode ser bem pequena, enquanto as dos dentes do dinossauro podem ser enormes. Melhor, sempre, seria evitar o uso abusivo e a banalização da palavra cratera e ser mais preciso ao informar sua real dimensão.
No noticiário policial, outra palavra também virou clichê: “passagem”. O termo deriva da expressão “tem passagem pela Polícia”, que significa que um suspeito é praticante contumaz de determinado ato infracional ou crimes variados. Com o tempo, o complemento “pela Polícia” foi caindo em desuso e, hoje, é mais comum o repórter dizer apenas que o indivíduo “tem passagem” (coisa que muito viajante ou turista também tem, afinal – podendo gerar indesejáveis interpretações em uma matéria sobre overbooking nos aeroportos brasileiros). E aí, por uma clara preguiça de redatores e repórteres em buscar palavras e expressões menos puídas pelo uso, “passagem” tornou-se uma figurinha fácil e repetida à exaustão nas editorias de polícia – para quem ninguém mais parece ter antecedentes criminais ou ser, simplesmente, reincidente.
O “craque” no banco
O tema remete a outro clichê dessa editoria, mais frequente, porém, em TV. É a inesquecível cena da “extensa ficha policial” (uma expressão igualmente clichê), em que todo o histórico do suspeito é estendido pelo chão das dependências da delegacia e a câmera sobrevoa a papelama até encontrar o repórter, de pé, na outra ponta da ficha – ao lado do delegado ou investigador do caso.
Esse é um perfeito exemplo de clichê visual, um modelo de abordagem da matéria que é copiado e reproduzido por diversos repórteres de emissoras distintas. Mas, felizmente, parece estar em desuso. Mérito, talvez, não dos nossos repórteres e cinegrafistas, mas da substituição dos formulários contínuos e das impressoras matriciais pelo prático papel A4 e modernas impressoras a laser ou jato de tinta, em nossas delegacias.
Território dos mais profícuos para o surgimento e propagação de bordões e chavões, o jornalismo esportivo é a grande clicheria-mãe de toda a mídia. Com o perdão do trocadilho, é o campeão. E é de lá que vem o mais novo clichê do jornalismo nacional. Expressão lugar-comum, arroz de festa, bola da vez e figurinha fácil de toda mesa de debates na TV e resenhas esportivas do rádio, o “jogador diferenciado” barrou o antigo “craque” e parece ter conquistado definitivamente a posição de titular da equipe – qualquer equipe.
Um jornalista diferenciado
Mais uma vez, não é o termo que é inadequado; é o uso abusivo que incomoda e que cria o clichê. E, aí, a limitação do vocabulário do jornalista e a pobreza do texto se evidenciam. O atleta até poderá continuar sendo diferenciado, mas os textos jornalísticos ficam cada vez mais iguais. Porque algum repórter ou comentarista foi original e cunhou a expressão, os outros só a reproduzem, sem critério.
Por isso, toda vez que escuto um repórter dizer que fulano “é um jogador diferenciado”, preciso me segurar para não partir logo para as mais escabrosas especulações sobre o atleta. Será que o sujeito é azul? Veste fraque para jogar futebol? Calça 68, bico fino? Tem três cabeças? Cinco orelhas? Tem nadadeiras dorsais?
Sei lá, no fundo, talvez eu seja apenas um jornalista diferenciado, com passagem por antigas redações e pronto para ser engolido por alguma cratera que se abra em meu caminho e sepulte minhas ideias para sempre...

domingo, 17 de abril de 2011

Livro ensina redação empresarial


Hélio Consolaro* 

Dizem por aí que um escritor costuma rasgar seda para outro. A expressão “rasgar seda” significa elogiar, fazer loas. E por que não? Afinal, somos colegas e sabemos de nossas dificuldades. Uma atitude meio corporativista.

Então, o amigo Joaquim Maria Botelho, jornalista, presidente da União Brasileira de Escritores – UBE, lançou o livro “Redação empresarial sem mistérios – Como escrever textos para realizar suas metas”, da Gente Editora, prefaciado por outro jornalista, Juca Kfouri.
O autor é bem objetivo e suas aulas são práticas, tem clareza nas explicações. 

“Para estabelecer a boa comunicação, escrever bem é fundamental, especialmente para quem deseja ser reconhecido no mercado de trabalho. As melhores qualidades de um texto são a correção e a boa organização de ideias. As palavras, combinadas com acerto e inteligência, formam textos claros e coerentes. O livro leva o leitor a refletir sobre a lógica da língua, ajudando-o a construir combinações corretas e de entendimento universal.”

“Redação Empresarial” é uma coleção de dicas úteis que ajudarão o leitor a elaborar textos adequados às necessidades do dia a dia. Apresenta orientações sobre aspectos básicos da língua portuguesa. O leitor aprenderá a evitar vícios de linguagem, regionalismos e gírias. Experimentará a utilidade das numerosas figuras de linguagem; conhecerá convenções usadas na grafia de horas, medidas e siglas, bem como terá explicações sobre pontuação, grafia de elementos numerais, plural de substantivos compostos, e também sobre o uso e a regência de verbos. A maltratada crase, por sua vez, terá seu uso explicado de modo simples e objetivo, com variados exemplos para facilitar o entendimento. Enfim, trata-se de um livro para ler e consultar. Capítulos curtos e bem ilustrados.

E o mais importante, tudo conforme o acordo ortográfico do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, edição de 2009. Aliás, o livro ensina ao leitor as mudanças ocorridas.

A obra tem 146 páginas, R$ 24,90. Há editoras vendendo-o por R$ 19,80. Não há edição digital à venda.

E-mail do Joaquim Maria Botelho: joaquimbotelho@editoragente.com.br  

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras, da UBE e da Cia. dos Blogueiros. Atualmente é secretário da Cultura de Araçatuba.